IMINTZ, Sidney W. Comida e antropologia: uma breve
revisão.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, 2001; 16(47):
31-42.
[Sobre a comida e o ato de comer]
Comer é uma atividade humana central não só por sua frequência,
constante e necessária, mas também porque cedo se torna a esfera onde se
permite alguma escolha (...) uma base para nos relacionarmos com a realidade. A
comida “entra” em cada ser humano. ” p.32
[Sobre a comida e o objetivo do texto: a pesquisa antropológica]
“Dificilmente outro comportamento atrai tão rapidamente a atenção de um
estranho como a maneira que se come: o quê, onde, como e com que frequência
comemos, e como nos sentimos em relação à comida. (...) não espanta que os
antropólogos, desde o começo, tenham se fascinado pela ampla gama de
comportamentos centrados na comida. ” p.31
[Sobre a comida e o capitalismo: difusão da fast food ocidental
e das cozinhas asiáticas]
Por toda parte e muito antes dos dias de hoje, o capitalismo “tinha como
alvo a satisfação de antigos desejos por novos meios” e “como fazer dinheiro
alimentando” as pessoas. p. 33
Assim “ as últimas duas décadas assistiram a uma difusão sem precedentes
de novos alimentos e novos sistemas de distribuição em todo o globo. ” p.34
[Sobre a comida e a globalização: a difusão do milho, da batata, do
tomate e da pimenta-do-reino; da mandioca e do pimentão; do amendoim e da
castanha e a popularização de chá, café, açúcar e chocolate, as banana
republics, e outros exemplos]
“A difusão mundial de certos alimentos (...) é muito mais antiga do que
a chamada “globalização”, (...) não precisou “de transporte aéreo, de
cientistas de aventais brancos, do MacDonald’s, nem de engenharia genética –
nem tampouco de propaganda, e muito menos de antropólogos – e começou a
acontecer há quinhentos anos. ” p.34
[Sobre comida e identidade social: alimentos etnicamente
neutralizados]
“O comportamento relativo à comida liga-se diretamente ao sentido de nós
mesmos e à nossa identidade cultural, e isso parece valer para todos os seres humanos.
” p.31
“Como as comidas são associadas a povos em particular, e muitas delas
são consideradas inequivocamente nacionais, lidamos com questões relativas à
identidade. (...) Seria mais fácil mudar o sistema político da Rússia do que
fazê-los abandonar o pão preto; a China abandonaria sua versão de socialismo
mais facilmente que o arroz. E, no entanto, a população desses dois países
mostra uma extraordinária disposição para experimentar novas comidas. ”p.34
“Não deve nos surpreender o fato de que certas comidas consideradas
marcadores étnicos – por exemplo, macarrão, croissants, bagels,
pizza, o croque monsieur – estejam perdendo hoje esse rótulo,
tornando-se, dentro do mercado global de alimentos, o que eu chamaria de
comidas etnicamente neutralizadas. ”p.35
[Sobre a comida e a pesquisa tradicional: estudo de comunidades e
sociedades autocontidas]
“A comida enquanto tal – isto é, intrinsecamente enquanto comida – tem
sido talvez, um objeto menos interessante para a antropologia do que suas
implicações sociais. Por exemplo, o exercício de poder dos chefes e a
redistribuição da comida; os laços matrilineares de parentesco ao longo dos
quais se move o alimento, em suas funções de nutrição, exibição e alinha viva
entre a afinidade e a consanguinidade; a competição por prestígio na produção
de seus alimentos; e assim por diante. ”p.32
“Os antropólogos tradicionalmente concentraram seus esforços em
sociedade que eram pequenas, não ocidentais, (...) e cujos povos baseavam a
maioria de suas relações sociais no parentesco ou na localidade. ”p.33
[Sobre a comida e a pesquisa contemporânea: estudo de
mercadorias e dietas]
(...) “ as análises de comunidades humanas no mundo moderno se tornaram
mais complexas graças à crescente interconexão econômica das localidades. (...)
e tanta comida flui e em tal volume e velocidade, que a unidade de produção e
consumo muitas vezes se perde ou se oculta. ” (...) a unidade de produção,
distribuição e consumo que tipifica cada um desses sistemas alimentares [isto
é, a pesquisa nas sociedades ditas “primitivas”] facilitou muito o estudo.
” [contemporâneo]. p.33
“O livro do médico britânico, Redcliffe Salaman, The history and
social influence of the potato (1970) marcou época,
relacionando as civilizações andinas, de um lado, e a natureza da política
irlandesa, de outro. (...) Meu livro Sweetness and Power (1985),
um estudo da sacarose, procurou relacionar as colônias às metrópoles europeias,
os escravos do Novo Mundo aos proletários do Velho. La historia de um
bastardo (1988), monografia de Arturo Warman sobre o milho, fez mais
ou menos o mesmo com a disseminação global dessa estranha planta americana.
(...) o pioneiro Food, gender and poverty in the Ecuadorian
Andes (1988), de Mary Wiesmantel, (…) nos permite ver como a comida da
cidade adquire um significado especial por ser da cidade,
enquanto a cevada e as favas perdem sua atração justamente porque não são
“comida da cidade”. (...) três obras sobre a pimenta-do-reino, Peppers (1992),
de Amal Naj, Capsicum y cultura (1986), de Janet Long-Solís,
e Chilies to chocolate (1992), organizado por Nelson Foster e
Linda Cordell, examinavam essa notável comida picante (...) “Rice and self,
de Ehmiko Ohnuki (1993), o arroz no Japão é avaliado em toda sua complexidade
política e cultural. (...) Logo depois, os livros de Edmundo Morales (1995) e
Eduardo Archetti (1997) sobre o porquinho da Índia provaram que não só as
plantas do Novo Mundo podiam ser interessantes. (...) Steve Penfold descobriu
que os doughnuts são um símbolo surpreendente do patriotismo
canadense e do antiamericanismo. (...) Thach Giao Truong descobriu o caso da
sopa de massa vietnamita chamada pho bo, oriunda do norte do
país, que tinha suplantado rapidamente a sopa típica do sul desde a união
do Vietnã do Sul e do Norte (...) Jeffrey Pilcher, em Que vivan los
tamales! (1998) mostra que a modernização do país [México] tornou a
cozinha e a dieta mestiças mais habituais do que as comidas tradicionais do
passado asteca. (...) Aise Çaglar, no livro organizado por Carola Lentz, Changing
Food habits (1999), oferece um quadro criativo de como os alemães se
tornaram apreciadores do prato turco doner kebap, e das relações
antes não reveladas entre essa humilde comida de imigrantes, produzida para os
anfitriões alemães, e questões maiores de imigração e preconceito
étnico.”(...) O volume organizado por Jun Jing, Feeding China’s little
emperors (2000) mostra (...) Aumentos consideráveis no consumo de
proteína animal, o uso crescente de alimentos preparados, o aparecimento da categoria
“comida de criança” e outras inovações [que] sugerem que a dieta da China está
realmente mudando. (...) E a voga continua, com novos livros sobre o
bacalhau, o ruibarbo, o chocolate, e muitos outros animais, plantas, sabores e alucinógenos.
”p.35-36
