17 setembro 2024

Fúsion é de raiz ou a cozinha brasileira não tem como descaracterizar-se


“Toda essa tradição está em declínio, ou pelo menos,

 em crise, no Nordeste. E uma cozinha em crise significa
uma civilização inteira em perigo: o perigo de descaracterizar-se.”
(Gilberto Freyre. Manifesto Regionalista

 

O comentário da frase de Freyre será aquele de uma professora de língua e literatura no contexto da disciplina Antropologia da Alimentação com objetivo de recuperar alguns índices de sentido para a gastronomia brasileira. Se o leitor descobrir reduplicações de banalidades, pode ele mesmo sugerir que outras leituras se apliquem de maneira consequente.
De modo direto, apodero-me da frase presumindo que carregue uma possibilidade de discordância. Falo ainda em fusión quando implico a discordância. E sirvo-me também desta discordância para arriscar idéias.  É o meu caminho no Manifesto Regionalista.
Freyre dá à tradição dimensão que a torna detentora de uma identidade brasileira. É nela, presa a ela, formada por ela, que um chef não descaracterizaria a cozinha local contra “os doces dos confeiteiros parisienses e italianos”. Entretanto “aqui algo não está de acordo” O intruso de que o manifesto fala contém semanticamente o introduzir, fazer vir do outro, mostrando uma referência originária que se dá na formação nacional: complexo cultural de índios, negros e europeus. O que é ser local? O local é fusão – de ingredientes, técnicas, criatividade, paixão e inovação. E esta fusão que está determinada e fundada em Freyre, deve-se desenvolver na gastronomia brasileira. A tradição não é realmente aquilo que caracteriza. O sentido é outro. A palavra tradição é uma categoria de descrição. A tradição autêntica é aquela que está de acordo com aquilo que entendo como tradição. A tradição está de acordo com fusão.
Este caráter de fusão lembra-me o de fusión: movimento da cozinha de vanguarda, sem manifesto e com festival gastronômico de atividades e experiências culinárias que acordam em misturar tudo e todos no mundo. Na medida em que os enlaço, o manifesto e a cozinha fusión, significo aqui: o texto de Freyre ser atual e garantia de tradição no questionamento sobre antropologia da alimentação.
Já por força da antropologia, me movo na esfera de um comportamento intencional frente à cozinha brasileira, que é o de legitimar a fusão por três pressupostos: (1) a releitura de pratos-emblemas, (2) a valorização de produtos locais premium e (3) o uso de categorias de descrição saúde/doença. O que, com certeza, não precisaria ser aprendido na Sorbonne 3... e não incorreria no perigo de descaracterizar-se (?) Acrescentaria a essência da prática “slow food” para que a comida envolva aspectos de relação, interação social e afeto.
E assim é este comentário, enquanto um texto, cultura contendo uma leitura da frase de Freyre, “um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, (...) escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado” 4 , o de professores de língua e literatura. Totalmente transitório!

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ARANTES, M.T. Fusíón é de raiz ou a cozinha brasileira não tem como descaracterizar-se

RESUMO: Sobre uma frase do Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre. O comentário começa com uma discordância: a tradição como fusão. Sugere que a cozinha brasileira tem relação como o movimento fusión, e termina com idéias de um comportamento intencional em gastronomia.

MARCADORES

Antropologia, Cozinha brasileira, Gilberto Freyre, Movimento fusión, Gastronomia

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ARANTES, M.T. Fusion as root or the Brazilian cuisine is not supposed to lose their identities 

ABSTRACT: A comment on a phrase by Gilberto Freyre’s Manifesto Regionalista. It presents an otherwise statement: tradition concerns in fusion and suggests that the Brazilian cuisine is older than the fusión tendency, with the final author’s ideas for a deliberate behaviour evolving gastronomy.

TAGS

Antropology, Brazilian cuisine, Gilberto Freyre, Fusión tendency, Gastronomy

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Referências bibliográficas

 ¹ FREYRE, Gilberto. Manifesto Regionalista: organização de Fátima Quintas Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana,1996.

² Cf. HEIDEGGER, Martin. Sobre a essência da verdade. Conferências e escritos filosóficos: tradução e notas de Ernildo Stein. São Paulo, Abril Cultural, 1979.
³ Cf. Reduplicação da frase de Josué de Castro de que não foi na Sorbonne que descobriu a fome. A fome estava nos mangues do Recife. Biografia e bibliografia disponível em www.josuedecastro.com.br
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.Apud BERGER, Mirela. Disponível em www.minosoft.com.br/mirela/download/geertz2.pdf. Acesso em 24/01/2012

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