“Toda essa tradição está em declínio, ou pelo
menos,
em crise, no Nordeste. E uma cozinha em crise
significa
uma civilização inteira em perigo: o perigo de
descaracterizar-se.”
(Gilberto Freyre. Manifesto Regionalista)¹
O comentário da frase de Freyre será aquele de uma professora de língua
e literatura no contexto da disciplina Antropologia da Alimentação com objetivo
de recuperar alguns índices de sentido para a gastronomia brasileira. Se o
leitor descobrir reduplicações de banalidades, pode ele mesmo sugerir que
outras leituras se apliquem de maneira consequente.
De modo direto, apodero-me da frase presumindo que carregue uma
possibilidade de discordância. Falo ainda em fusión quando
implico a discordância. E sirvo-me também desta discordância para arriscar
idéias. É o meu caminho no Manifesto Regionalista.
Freyre dá à tradição dimensão que a torna detentora de uma identidade
brasileira. É nela, presa a ela, formada por ela, que um chef não
descaracterizaria a cozinha local contra “os doces dos confeiteiros parisienses
e italianos”. Entretanto “aqui algo não está de acordo”.² O intruso de que o
manifesto fala contém semanticamente o introduzir, fazer vir do outro,
mostrando uma referência originária que se dá na formação nacional: complexo
cultural de índios, negros e europeus. O que é ser local? O local é fusão – de
ingredientes, técnicas, criatividade, paixão e inovação. E esta fusão que está
determinada e fundada em Freyre, deve-se desenvolver na gastronomia brasileira.
A tradição não é realmente aquilo que caracteriza. O sentido é outro. A
palavra tradição é uma categoria de descrição. A tradição
autêntica é aquela que está de acordo com aquilo que entendo como tradição. A
tradição está de acordo com fusão.
Este caráter de fusão lembra-me o de fusión: movimento da
cozinha de vanguarda, sem manifesto e com festival gastronômico de atividades e
experiências culinárias que acordam em misturar tudo e todos no mundo. Na
medida em que os enlaço, o manifesto e a cozinha fusión, significo
aqui: o texto de Freyre ser atual e garantia de tradição no questionamento
sobre antropologia da alimentação.
Já por força da antropologia, me movo na esfera de um comportamento
intencional frente à cozinha brasileira, que é o de legitimar a fusão por três
pressupostos: (1) a releitura de pratos-emblemas, (2) a valorização de produtos
locais premium e (3) o uso de categorias de descrição
saúde/doença. O que, com certeza, não precisaria ser aprendido na Sorbonne 3... e não incorreria no perigo de descaracterizar-se (?) Acrescentaria a
essência da prática “slow food” para que a comida envolva aspectos de relação,
interação social e afeto.
E assim é este comentário, enquanto um texto, cultura contendo uma
leitura da frase de Freyre, “um manuscrito estranho, desbotado, cheio de
elipses, (...) escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos
transitórios de comportamento modelado” 4 , o de professores de língua e
literatura. Totalmente transitório!
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ARANTES, M.T. Fusíón é
de raiz ou a cozinha brasileira não tem como descaracterizar-se
RESUMO: Sobre uma frase do Manifesto Regionalista de
Gilberto Freyre. O comentário começa com uma discordância: a tradição como
fusão. Sugere que a cozinha brasileira tem relação como o movimento fusión,
e termina com idéias de um comportamento intencional em gastronomia.
MARCADORES
Antropologia, Cozinha brasileira, Gilberto Freyre, Movimento fusión,
Gastronomia
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ARANTES, M.T. Fusion as root or the
Brazilian cuisine is not supposed to lose their identities
ABSTRACT: A comment on a phrase by Gilberto Freyre’s Manifesto
Regionalista. It presents an otherwise statement: tradition concerns in
fusion and suggests that the Brazilian cuisine is older than the fusión tendency,
with the final author’s ideas for a deliberate behaviour evolving gastronomy.
TAGS
Antropology, Brazilian cuisine, Gilberto Freyre, Fusión tendency,
Gastronomy
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Referências bibliográficas
¹ FREYRE, Gilberto. Manifesto Regionalista: organização de
Fátima Quintas Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana,1996.
² Cf. HEIDEGGER, Martin. Sobre a essência da verdade. Conferências
e escritos filosóficos: tradução e notas de Ernildo Stein. São Paulo, Abril
Cultural, 1979.
³ Cf. Reduplicação da frase de Josué de Castro de que não foi na Sorbonne
que descobriu a fome. A fome estava nos mangues do Recife. Biografia e
bibliografia disponível em www.josuedecastro.com.br
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