14 maio 2024

Roteiro de Montariol: resenha crítica e descritiva

 


                                                                                                 Maria Teresa dos Santos Arantes

                     
ARAÙJO, António de Sousa. Roteiro de Montariol. Cronologia. Notas e Aspectos da História: 
Braga, Caprichos - D’Encantar, Franciscanos de Montariol ed., 2022. 95p.

Em Roteiro de Montariol, de António de Sousa Araújo, nos é apresentada a história de um convento: o Convento de Montariol. De acordo com Fr. Henrique Perdigão, que assina o Pórtico, a publicação do livro resultou da necessidade de reunir informações “que ajudarão as pessoas a compreender o que em Montariol as faz sentir-se bem e a respirar tranquilidade, paz e bem-estar” (p. 9). Esse propósito incendeia de imediato a curiosidade de possíveis interessados e convida à leitura.

Já a folhear as páginas, observamos uma organização em três partes: 1. Montariol: Igreja e Colégio Seráfico; 2. Montariol: Notas e Aspectos da História; e 3. A Tipografia do Boletim Mensal das Missões Franciscanas. Embora haja um núcleo de referência básica, o leitor pode apropriar-se de cada parte de modo totalmente independente. É, entretanto, ao descobri-las correlatas que se atinge uma unidade de pensamento, uma concordância efetiva, uma comunhão intencional da existência do lugar, de homens e de coisas.

Em Igreja e Colégio, o autor decidiu registrar a história em ordem cronológica. Ao lado das datas, escritas em formato predefinido para Portugal em ano, mês e dia, é possível verificar (1) etapas do projeto de construção e gestão de obras contínuas; (2) implantação dos espaços fundamentais da ação litúrgica (presbitério, altar-mor, sacristia, coro, lugares de serviço etc.); (3) relação de objetos e imagens em livros de inventários; (4) aquisição do órgão austríaco Rieger; e (5) identificação de reitores/guardiões, beneméritos, zeladores e construtores. Cabe mencionar que esses dados encontram-se contíguos a outros que se relacionam com atividades e deliberações da ordem franciscana, principais fatos políticos do século XX no mundo e em Portugal, e calendário de eventos da Igreja Católica.

Quanto às Notas e Aspectos da História, Araújo esclarece que o texto, “que agora aqui publicamos, muito ampliado e melhorado”, foi-lhe solicitado “há anos pelo Doutor Domingos Guimarães Marques, para uma sua projectada obra Passeando pelas ruas de Braga, entretanto suspensa, por motivos de saúde” (p.45). Feita essa advertência, o autor informa a localização geográfica do monte da Boavista ou Montariol e, pelo recurso de uma narrativa linear, ou seja de forma corrida, o leitor toma conhecimento da história da igreja e Colégio/Convento de Montariol pelos seguintes tópicos a saber: A Igreja de S. Boaventura , ex-libris de Montariol; Irradiação apostólica pela Palavra pregada; Irradiação pela divulgação da escrita; Implantação da República; Montariol convertido em Quartel; O roubo do órgão e desaparecimento de Imagens; Após anos de abandono e pilhagem, nova vida; A construção do Colégio de 1928-1938; Associação dos Antigos Alunos; Nos últimos 80 anos; Mata. Cruzeiro, Capela e Quinta de Montariol e Centro “o Poverello”. ¹ É valido ressaltar que a observação atenta das palavras-chave, nos tópicos, de pronto orienta o nosso raciocínio sobre o que essa Casa foi e é, e sobretudo instiga a permanência no conteúdo.

A terceira e última parte, A Tipografia do Boletim Mensal das Missões Franciscanas, aborda a atividade editorial da ordem franciscana que converteu Montariol em “púlpito da palavra escrita para o perto e para o longe, no espaço e no tempo (e que a acção da Internet permite ver e ler onde ela se fizer sentir...) ” (p.85). Isso posto, Araújo coloca em evidência a trajetória da tipografia destacando (1) as alterações de endereço, com transferência de pessoal e oficinas, e a transformação destas em Tipografia da “Editorial Franciscana”; (2) os títulos de publicações vinculadas à Ordem, compostas e impressas em Montariol; e (3) as boas práticas dos frades diretores e administradores desde 1923 – e conclui,  lembrando que foi importantíssima a contribuição da tipografia como escola profissionalizante em artes gráficas para irmãos leigos a serviço das Missões em Portugal e no ultramar.

Igualmente relevante é o texto Origo. Passio. Elevatio ² dentro do Roteiro. Logo depois do Pórtico, um outro irmão, Fr. António Manuel Vinhas Lopes prepara o caminho de Montariol. Da base ao cume do monte, Lopes não nos deixa uma compreensão objetiva do itinerário, que poderia ser monótona, mas desenvolve a alma da paisagem ³ em imagens poéticas, convidando todos “a entrar, a estar, a passear e a passar”, ” a conhecer e a construir a história deste espaço (p.11). E arremato: a sentir essa história, caminhando para seu interior, e fazendo   memória do Convento, reconhecer-lhe o valor.

A expressão “reconhecer o valor”, se aplicada agora ao livro todo, é constitutiva do agir bem nos modos de fazer história. Araújo foi bem sucedido ao ampliar o conceito de documento histórico, reconstruindo a história do convento com texto escrito e suplementando-o com fotografias como evidência da cultura material.4  Dentre várias imagens, ao olharmos algumas de objetos físicos a exemplo daquela do portão de ferro na fachada do convento ou dos anjinhos do órgão Rieger ou dos vitrais com representações de santos, não é difícil perceber que o uso da estratégia pictórica confirma o documento escrito. Nessa construção abrangente, o Roteiro se consolida como um documento que tem em si a característica de um monumento, conforme discutido por Le Goff (1990),5 para ressignificarmos o passado sobre a memória e o futuro.

Ainda parece interessante considerar a possibilidade de comentar o livro em conexão com uma ideia, de cunho claramente particular, mas subordinada ao conhecimento acadêmico. Se tomamos o conceito de metalinguagem da lógica e da linguística,6   e aplicamos ao texto de Araújo, não é fora de propósito falar-se de metamonumento ou monumento do monumento: o monumento documento explicando o monumento Montariol, voltado para si e se transformando no próprio referente. Quaisquer outras atribuições de valores, deixo para um e outro leitor que, quando um exemplar do Roteiro de Montariol lhes caia em mãos, se disponham a “ler” os Monumentos, e escrever. Aproveitem-no bem!

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¹ Ex-libris: s.m.  Dos livros de; é um complemento circunstancial em forma de etiqueta como sinal de propriedade. Seu uso, aplicado à Igreja de S. Boaventura, indica que o monumento é “propriedade” de Montariol. [Do latim: ex libris]; Poverello: s.m.  Pobrezinho. Designação especial de São Francisco de Assis devido à sua pobreza voluntária. [ Do ital. 'diminutivo' de povero].
² Em latim Origo. Passio, Elevatio significa em português Origem.  Paixão (especialmente de Cristo) e por extensão atração intensa ou movimento violento. Elevação (ato de elevar). É preferível reescrever o título de LOPES, como ele mesmo o faz, atendendo ao propósito do texto: Começo. Passagem. Plenitude.
³ Conceito do âmbito da geografia, promovido por Ewald Banse, em que o indivíduo constrói o discurso da paisagem levando em conta, não apenas o que é visto, mas manifestando valores afetivos que permitem entender sua importância no cotidiano das pessoas. Cf. DARBY, Henry Clifford. O problema da descrição geográfica. <https://doi.org/10.4000/confins.26809>. Acesso em 30/04/2024.
4 Ver BURKE, Peter. ” Problemas das fontes” no capítulo A Nova História, seu passado e seu futuro, em A escrita da História: novas perspectivas.  São Paulo: Editora UNESP, 1992.
LE GOFF, J.  História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
6 Para compreensão de metalinguagem como linguagem que serve para descrever ou falar sobre uma outra linguagem ver JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. São Paulo: Cultrix. 1969..

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