13 agosto 2024

Retalhos para colcha


Volta do colégio. Na porta dos fundos com minha mãe, me deparo com a figura do meu avô, de terno e mala de couro, confortavelmente sentado na cadeira de balanço. Calmo e grisalho. Quando me vê, rápido descruza as pernas e generoso abre os braços. Abraço e beijo demorados.

Com ar maroto e meio que escondido, vovô Juca me entrega a sobremesa. Banho apressado, volto à sala para lhe contar a minha pequena, mas intensa vida escolar: é quando chega o filho também de terno, esbaforido para almoçar, e o beija com ternura. Ruy tira o paletó, e o outro o copia, ficando mais à vontade.

Sentados ficam vovô e papai. Eu, ora no colo de um ora no do outro, espero a hora da sobremesa. Em silêncio escuto sua voz carregada do sotaque português, às vezes de difícil compreensão, comentar alguns factos.

No melhor da conversa, minha mãe Nilsa nos chama para sentarmos à mesa redonda de jacarandá onde meu avô tinha lugar marcado.

O velho Juca não tem pressa. Cada garfada é do seu tempo. Almoço demorado! Todos acabam com pressa: Ruy tem que voltar ao trabalho; Nilsa, aos afazeres diários e eu, louca pela sobremesa.

Após o café, chega a hora. Abro a sobremesa no colo do meu avô. Ofereço-lhe e ele prontamente a recusa: era minha. Ficava me olhando, e enquanto eu comia, cochichava alguns segredos.

Não conto os segredos.

Qual era a sobremesa? Todos sabem: língua de gato.

 Maria Regina


Lembro-me da raiva por não ir ao Congresso de Semiótica em Urbino, na Itália: meu pai pagou as dívidas do vô Juca com o dinheiro da viagem. A feira de negócios no Pavilhão de São Cristóvão fora um fracasso.

Devia ter chorado naquela ocasião.

Lembro-me da angústia por não corresponder aos seus carinhos: não atendia os telefonemas e não o olhava nos olhos. Vô Juca perceberia a minha decepção.

Devia ter conversado naquela ocasião.

Lembro-me do egoísmo de não lhe acompanhar a doença na velhice: fugi para os livros, isolando-me.

Devia ter amado mais naquela ocasião.

Lembro-me da culpa de não o ter sepultado: ignorei o assunto. 

Vô Juca apreciaria a gentileza se eu comparecera.

Devia ter perdoado naquela ocasião.

Choro, converso, amo-o e me perdoo nesta ocasião.

Vô Juca sabe!

 Maria Teresa


As coisas que eu lembro ausentaram a criança em mim.

Olinda, Igreja do Amparo, tio Tonhão. Papai se endividou e adoeceu. A Casa Arantes perdera a concorrência pública para a confecção do fardamento da Polícia. Vendeu-se tudo. Deixamos o Recife e fomos morar em Olinda ao lado da Igreja do Amparo. Dormimos em esteiras de palha. Tio Tonhão veio conosco. Tinha 12 anos.

Rio de Janeiro, tia Carolina, emprego. Papai migrou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades de negócio. Viemos. Em seguida, Tia Carolina me conseguiu trabalho no comércio de tecidos. O ordenado era de cem mil reis. Tinha 14 anos.

As coisas que eu lembro precipitaram o homem em mim.

Ruy 



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