Cultura: um conceito antropológico (Zahar, 2009, 117p.) do antropólogo e
professor da Universidade de Brasília Roque de Barros Laraia toma como ponto de
partida uma pergunta: como há diferenças culturais se partilhamos o comum-pertencer de
homem? Não responde a pergunta. Prefere arrancar o leitor da pura imediatidade
e o leva a desdobrar os elementos característicos do conceito de cultura em
linguagem clara e didática. É comportamento filosófico.
Nas duas partes do texto, Laraia
carrega as páginas com o pensamento de outros teóricos, que combinado com
exemplos, nos permite apresentar a sua análise antropológica em dez proposições
básicas: 1- diferenças genéticas e geográficas não dão conta de diferenças
culturais; 2 - diferenças culturais decorrem de processo de aprendizagem; 3 -
cultura é ela mesma o homem como um sistema de símbolos significantes
compartilhados em grupo; 4 - padrões culturais interferem nos padrões de
comportamento; 5 - não há possibilidade de um indivíduo participar de todos os
elementos de uma cultura; 6 - é necessário conhecimento mínimo de regras
preferenciais para se operar dentro de uma cultura; 7 - a lógica de um sistema
cultural revela-se nas categorias do sistema mesmo; 8 - mudanças de padrão
evidenciam o caráter dinâmico da cultura; 9 - não há natureza humana
independente da cultura; 10 - padrões culturais de um dado sistema acomodam
empréstimos de outros sistemas culturais. Atingido tal ponto, a resposta deve
ser encontrada pelo raciocínio individual.
Cultura chama nossa atenção para o fato de que o homem “faz
cultura” na e pela linguagem. Neste “fazer” ocorre a irrupção do homem mesmo –
e nada mais. A identidade humamun é abstrata e não persiste na
igualdade. Cada homem traz à linguagem a referência de mundo, o comportamento e
a identidade do seu grupo e tempo. Isto não quer dizer o “igual”, e sim o mesmo.
Cada cultura é ela mesma a mesma e, no pensamento do autor, já é tempo de nos
desacostumarmos de classificar práticas diferentes como “absurdas, deprimentes e
imorais”, e de observarmos o quanto nos apoderamos das práticas dos outros na
leitura do excerto do texto do antropólogo Ralph Linton sobre o começo do dia
do homem americano.
Laraia permanece atual e indispensável
se for uma informação primeira do leitor no tema, e ao divulgar uma
bibliografia suplementar facilita o desenvolvimento das discussões de como
compreender o conceito de cultura significa mesmo o
compreender a natureza humana. Se for assim, a pergunta inicial do livro
desemboca, eu suponho, numa outra pergunta filosofante: Por que
existe afinal o homem?

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