20 agosto 2024

Que é cultura


Cultura: um conceito antropológico (Zahar, 2009, 117p.) do antropólogo e professor da Universidade de Brasília Roque de Barros Laraia toma como ponto de partida uma pergunta: como há diferenças culturais se partilhamos o comum-pertencer de homem? Não responde a pergunta. Prefere arrancar o leitor da pura imediatidade e o leva a desdobrar os elementos característicos do conceito de cultura em linguagem clara e didática. É comportamento filosófico.

Nas duas partes do texto, Laraia carrega as páginas com o pensamento de outros teóricos, que combinado com exemplos, nos permite apresentar a sua análise antropológica em dez proposições básicas: 1- diferenças genéticas e geográficas não dão conta de diferenças culturais; 2 - diferenças culturais decorrem de processo de aprendizagem; 3 - cultura é ela mesma o homem como um sistema de símbolos significantes compartilhados em grupo; 4 - padrões culturais interferem nos padrões de comportamento; 5 - não há possibilidade de um indivíduo participar de todos os elementos de uma cultura; 6 - é necessário conhecimento mínimo de regras preferenciais para se operar dentro de uma cultura; 7 - a lógica de um sistema cultural revela-se nas categorias do sistema mesmo; 8 - mudanças de padrão evidenciam o caráter dinâmico da cultura; 9 - não há natureza humana independente da cultura; 10 - padrões culturais de um dado sistema acomodam empréstimos de outros sistemas culturais. Atingido tal ponto, a resposta deve ser encontrada pelo raciocínio individual.

Cultura chama nossa atenção para o fato de que o homem “faz cultura” na e pela linguagem. Neste “fazer” ocorre a irrupção do homem mesmo – e nada mais. A identidade humamun é abstrata e não persiste na igualdade. Cada homem traz à linguagem a referência de mundo, o comportamento e a identidade do seu grupo e tempo. Isto não quer dizer o “igual”, e sim o mesmo. Cada cultura é ela mesma a mesma e, no pensamento do autor, já é tempo de nos desacostumarmos de classificar práticas diferentes como “absurdas, deprimentes e imorais”, e de observarmos o quanto nos apoderamos das práticas dos outros na leitura do excerto do texto do antropólogo Ralph Linton sobre o começo do dia do homem americano.

Laraia permanece atual e indispensável se for uma informação primeira do leitor no tema, e ao divulgar uma bibliografia suplementar facilita o desenvolvimento das discussões de como compreender o conceito de cultura significa mesmo o compreender a natureza humana. Se for assim, a pergunta inicial do livro desemboca, eu suponho, numa outra pergunta filosofante: Por que existe afinal o homem?

Nenhum comentário: